Domingo

POUCO

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Os Gêmeos

Um pouco compacto
Um pouco disperso

Um pouco manso
Um pouco perverso


Um pouco multidão
Um pouco solidão

Um pouco união
Um pouco rebelião

Um pouco calmaria
Um pouco ventania

Um pouco saudável
Um pouco febril


Um pouco razão
Um pouco emoção

Um pouco crescido
Um pouco estagnado

Um pouco simpatia
Um pouco arrogância

Um pouco teimosia
Um pouco mudança

Um pouco repleto
Um pouco vazio

Um pouco fosco
Um pouco transparente

Um pouco culpado
Um pouco inocente

Um pouco mel
Um pouco fel

Um pouco respeito
Um pouco intolerância

Um pouco ego
Um pouco caridade

Um pouco fraqueza
Um pouco fortaleza

Um pouco agudo
Um pouco grave

Um pouco picante
Um pouco suave

Um pouco água
Um pouco azeite

Um pouco roupa-nova
Um pouco trapo

Um pouco progresso
Um pouco retrocesso


Um pouco noite
Um pouco dia

Um pouco coragem
Um pouco fobia


Um pouco otimismo
Um pouco nostalgia

Um pouco excesso
Um pouco escassez


Um pouco orgulho
Um pouco decepção

Um pouco fértil
Um pouco estéril


Um pouco vital
Um pouco letal

Um pouco pouco
Um pouco pouco demais

Sábado

PAREDES DE TITÂNIO

Texto: Jorge Américo


Sorriu tão convincente
Que ninguém percebeu
O cofre
Que trazia dentro do peito
Impenetrável, com suas paredes de titânio,
Não se abre
Para nada que não tenha valor monetário

Domingo

CABEÇAO

Texto e ilustração: Jorge AméricoA cabeça
Desproporcional
Exige um corpo mais avolumado,
Que a natureza lhe negou

No topo,
Os piolhos fazem banquete
E os guardas e meninos mais velhos se divertem
Dando cascudos

Dentro dela, tudo é vago:
Fotografias borradas
Trechos de livros
Pedaços de mapas
Fios desencapados fazendo curto-circuito...
A trina sonora: os zunidos da zombaria

Como se fosse uma coxinha de padaria,
Tudo é envolto por uma enorme e densa massa
Da qual
Não se sabe ser
Miolo de pão ou miolo de Neandertal

Nada parece fazer sentido,
Senão o desejo de explodir
E sujar todo o mundo
Com idéias sem pé nem cabeça

Sexta-feira

MIGRAÇÃO

Texto: Jorge Américo
Ilustração: J. Miguel

Num ligeiro giro pela rodoviária abarrotada de gente
Olhou para todo mundo
E não viu ninguém.
Já era hora de voltar

Terça-feira

RANÇOS

Texto: Jorge Américo
O ano nem começou e já é quase Março.
O rei sorri e ameaça usar a força de seu braço.
O cavalo-sem-dono não se acostuma com o laço.
O astronauta diz que a Terra é mais bonita vista do espaço.
A criança nunca viu um palhaço.
A Polícia inventa provas e põe o pretinho num embaraço.
O sol vai embora e deixa mormaço.
O banqueiro se vê só e troca um carro por um abraço.
O afago não alivia mais o cansaço.
A lágrima não sai e enferruja o peito de aço.
A barriga tá estufada de tanto bagaço.

O velho morre sem nunca ter tido endereço.
O pão tá caro e ninguém sabe o preço.
A paixão provoca cegueira no começo.

O olhar da cigana é perigoso, tem feitiço.
O dente, se não beber leite, fica quebradiço.
O pai de dez não arruma serviço.
A vida é difícil no cortiço.
A Antropologia diz que o povo brasileiro é mestiço.
O relógio da vítima é de ouro maciço.
O açougue, depois das Festas, só vende chouriço.

A menina novinha tá esperando um filho e não sabe o nome do moço.
O lavrador só encontra lama no poço.
A notícia dada pela metade provoca alvoroço.
O patrão chupa a fruta e vende o caroço.
O médico diz que é melhor deixar a bala alojada no pescoço.
Mais de 30 milhões dormem sem almoço.

O poeta tenta falar e o verso vira soluço.

ABREVIAÇÕES

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Sebastião Salgado
Mundo vasto
Mundo gasto
Mundo devasto
Mundo sem pasto

Sem abobra
Sem macaxeira
Sem quiabo
Sem jiló
Anda que é só o pó...
Tal qual o homem
Antes e depois de ser homem

A fome abrevia os nomes,
Abrevia a vida.

Conheci um Zé
Que um dia chamou-se José
Mas tão logo desapareceu
Feito uma arvrinha que secou

A fome dá preguiça de pensar,
Preguiça de falar
De viver...
E conduz os mortais
À antiga sina da existência terrena
Porque com fome,
Morre o home.

Sexta-feira

INSÔNIA

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Patrick McDonnell
Acordou assustado
E foi ver se o céu
Ainda estava lá em cima
Quis entender para que serviam céu, estrela, lua
Não encontrou resposta.
Voltou para a cama com uma certeza:
Se não amanhecer,
Poderá ver estrelas o dia inteiro.

Sábado

FATALIDADE

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Magnus Muhr

A larva, parida ao sol do meio-dia,
Precisava, segundo determinações da natureza,
Evoluir em mosca
Reproduzir
Envelhecer
E morrer
Num prazo de 24 horas

Após o êxtase da metamorfose,
Entoava cânticos de alegria
Zunindo pelos ares e pelos lares...

De repente, uma fatalidade:
A morte precoce
(maquinada por uma mente perversa)

Certamente que morreria
Afogada num prato de sopa
Ou devorada por um réptil
Ou ainda, de indigestão, dispersa num acúmulo de fezes...
Mas a ação humana a impediu de ter uma morte natural
O moribundo inseto
Teve membros atrofiados
Insuficiência respiratória
Falência múltipla dos órgãos
E expiou envolvido numa nuvem de aerosol:
Desfecho dramático de uma vida desprovida
De grandes aventuras amorosas
E badaladas noites de verão

Era, apesar da futileza,
Uma mosca de bom coração
Pois voa agora, por intermináveis horas,
Sobre um jardim de purezas infinitas.

Domingo

ALVO

Texto: Jorge Américo
Ilustração: (disponível em "cantinho da borboleta")


Tem flechada

Que pega certeira

Bem na veia

Que manda sangue para a alma.

Fui alvejado.

Quinta-feira

SÓS

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Valdemar Freitas


Eu vi você me olhando

Pelo buraco da fechadura do meu peito


De repente tomou um susto

Quando percebeu

Que morava sozinha naquele lugar


Acendeu, então, uma vela

E me convidou para tomar um chá