domingo

Logo ali (ou Felicidade)

(Texto: Jorge Américo / Ilustração: José Rosado)
Pareceu sempre tão longe, mas era logo ali
O ponto de chegada, a estação terminal.
Era o fim da procura
De algo de que nem se sabia
A textura, a cor, o gosto, o cheiro, a temperatura.

Perecia felicidade
Embasbacava feito felicidade
Deixava na boca um gosto de algodão-doce, feito felicidade
Cegava feito felicidade
Fazia não se querer mais nada, feito felicidade

Insubordinável,
Ele não conteve o impulso
E avançou que nem bicicleta quando perde o freio na ladeira:
Quebrou o nariz!
Ela esteve o tempo todo ali, disfarçada,
Pintada com as cores de um belo dia de sol.
Ele não sabia, mas a felicidade
Era uma muralha intransponível.

  




FACA AMOLADA

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Mário Henrique Kämpf

 

Vem de noite, vem de dia...
Galopando no Tempo 
Com sua faca amolada 

Vem de noite, vem de dia...
Em qualquer estação,
Sempre de hora marcada

Vem de noite, vem de dia...
Executar a sentença
Que não muda 

Vem de noite, vem de dia...
Leva gente miúda,
Leva gente graúda

Vem de noite, vem de dia...
Um único golpe
E a alma desgruda

segunda-feira

MELANINA

Texto: Jorge Américo
Ilustração: Luís Lobo Henriques
Sem palavra que defina
Fumaça disfarçada de neblina
Presença nociva que contamina
Viola triste que desafina
Esperança que se perde na primeira esquina

Verdade que desatina
Dorzinha que passa com aspirina
Navalha que risca a face feminina
Revolta silenciosa feito buzina
Pavio apagado convertendo lágrima em parafina

Pensamentos voantes de menina
Os dois amores de Columbina
Lembrança que sufoca em surdina
Clarão que não ilumina
Fogueira de São João debaixo de garoa fina

Carro ladeira acima sem gasolina
Passado e futuro à beira da ruína
Avião de papel com defeito na turbina
Cerveja em garrafa de tubaína
Menino tentando crescer sem vitamina

Pão amanhecido sem margarina
Pedrinha que aprisiona a urina
Cartilha que indisciplina
Ciência que não se ensina
Açougueiro com licença para exercer a Medicina

Mundo sujo espelhado na retina
Água ardida que alucina
Substância letal em ampola de vacina
Vinagre para amaciar a carne na piscina
Micróbio se alimentando de penicilina

Capital do Capital invejando Teresina
Templo edificado em gelatina
Força bruta contra gente pequenina
Um tiro de borracha na costela para conter a adrenalina
Passagem proibida por excesso de melanina